25.5.10

Amar

 sister moon
Que pode uma criatura senão, entre criaturas, amar?
amar e esquecer, amar e malamar, amar, desamar, amar?
sempre, e até de olhos vidrados, amar?
Que pode, pergunto, o ser amoroso, sozinho, em rotação universal, senão rodar também, e amar? amar o que o mar traz à praia, o que ele sepulta, e o que, na brisa marinha,
é sal, ou precisão de amor, ou simples ânsia?
Amar solenemente as palmas do deserto, o que é entrega ou adoração expectante,
e amar o inóspito, o áspero, um vaso sem flor, um chão de ferro,
e o peito inerte, e a rua vista em sonho, e uma ave de rapina.
Este o nosso destino: amor sem conta, distribuído pelas coisas pérfidas
ou nulas, doação ilimitada a uma completa ingratidão,
e na concha vazia do amor à procura medrosa, paciente,
de mais e mais amor.
Amar a nossa falta mesma de amor, e na secura nossa, amar a água implícita,
e o beijo tácito, e a sede infinita.

Carlos Drummond de Andrade

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